Quando chovia a noite, com relâmpagos, ela nos arrastava aos beliscões para embaixo da mesa; depois, começava a rezar sem parar, mesmo incomodada com nossos risinhos de deboche. Vai ver que no fundo ela também achava graça daquilo tudo.
Brava, muito brava. Tanto que na ausência de minha mãe, era sob sua tutela que ficávamos. Mas o que d.Eva não sabia - e acho que não sabe até hoje - que ela facilitava muitas vezes. Talvez por que também não concordasse com o excesso de castigos, das penalidades severas, da opressão, mas podemos ver várias vezes o programa SÃlvio Santos aos domingos, uma espiadela ou outra na novela, muitas vezes a tarde inteira de sessão da tarde e o desenho que passava no zás-trás.
Eu sabia que ela estava em casa quando abria a porta da geladeira e lá dentro estava o velho potinho de cerâmica esmaltada marrom, com o arroz doce dentro, povilhado de canela em pó e aquelas folhinhas de laranjeira bem no meio (embora nunca soubesse onde ela arrumasse elas, não tÃnha um pé de laranja por ali em quilômetros).
Sua risada era danada de gostosa; era aliás uma gargalhada. Na hora do programa dos trapalhões, tudo ficava ainda mais engraçado com ela se juntando à claque. Ria de tudo com uma ingenuidade impressionante.
Mais tarde fiquei pasmo de ver que o papagaio, justamente aquele que fazia algazarra diariamente embaixo de minha janela, havia gravado - e reproduzido - justamente ela; e ele ria como ela a todo instante, principalmente - olha só a ironia, durante as noites de muita chuva.
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Cozinhava bem pra caramba: o melhor frango com quiabo, a carne de panela, o açúcar cristal com um punhado de sal; biscoito de povilho, o já citado arroz-doce, canjica e o inefável sonho-de-pobre, ou como outros conhecem parecido (a receita, exclusividade própria, foi-se com ela) como bolinho de chuva.
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Muito disso ainda se mantém com a Maria, que trabalha com meus tios, que consegue reproduzir parte dessas iguarias com quase exatidão.
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Mais muito mais fica aqui, impregnado e gravado na gente, tornando ainda vÃvidas essas lembranças, os gestos e as coisas. E afinal de contas, carrego o sangue dela por todos os lugares. A ramificação familiar existe, e são inegáveis as influências e heranças que permanecem mesmo a carne se partindo, rumo ao pó. Muito de nós ainda fica, permance e constrói novamente, diariamente.
Tenho muito orgulho de tê-la conhecido; com o passar dos anos, mesmo afastado, passei a admirá-la ao refletir tudo que conhecia acerca dela e sua vida, seu universo, sua trajetória; como muitas que existem por aÃ, foi uma leoa, viveu o diabo e comeu o pão que o diabo amassou. Mas levou adiante, o casamento com S.Tertuliano, uma vida financeira instável e difÃcil, moradia nômade - uma temporada em quase todo lugar. Não é por nada que tenho parentes espalhados por quase toda extensão do estado de Minas Gerais - tão a cara dela, tão familiar nas nossas vidas.
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Há muito dela em mim; vejo ela sempre na minha irmã, sei que também nos meus tios, primos - e muito na própria infelicidade de minha mãe.
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Algo se vai, decerto; mas muito de nós fica. Espero que façamos bom uso do que restou, construindo e somando com coisas novas. Sua risada, por exemplo, vai sempre ecoar em minha memória.
Por exemplo, ainda rio muito de uma queda acidental, quando moleque bem levado, fugindo da surra que ela prometia; de tamanco na mão, correndo atrás do efebo pela casa, que não devia ter mais que onze anos, e num gesto impensadamente infeliz, arriscou um pontapé mal-sucedido em cima de um tapete esgarçado que separava a cozinha da sala de jantar. Não deu outra, uma queda daquelas no chão, bem de bunda, daqueles que desconjuntam qualquer um.
Até ela caiu na gargalhada.
Mesmo longe eu não parava de rir; ainda me maldizendo desaforos, se levantou até com uma certa facilidade e desistiu de me bater. E gargalhava, rindo de si própria como uma criança.
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E sempre antes de dormir, mesmo não entendendo muito, eu e Ana Cristina sempre pedÃamos sua bênção - onde quer quela estivesse; e ela sempre respondia. Claro que como moleque zoado, adorava fazer isso em momentos singulares, quando por exemplo ela estivesse no banheiro, só para ver se ela respondia. E é claro impreterivelmente sim.
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Pois então agora é minha vez:
 Sua bênção, minha avó;
vai com Deus, querida.