e(Xtra)mundo

Terra Paralela; nessa órbita fora desse mundo, dessa realidade, aonde vai parar esse vagabundo…

11

de
fevereiro

segredo

Se perguntarem paara mim eu nego; digo do alto de minha racionalidade que não há mais como haver isso. Falo que não espero, e não olho para os lados, fechando mesmo a porta para possíveis possibilidades.

As desculpas são as mesmas, que não tenho mas idade para isso, que já queimei todas as oportunidades, que já não sou o mesmo de antes, que minha sina é violentamente solitária.
Que haveria uma espécie de condenação, de madito.

Fato é que o coração um dia partiu; partindo também todo o resquício consciente da capacidade mínima de sonhar, de criar esperanças - por mais tola que seja. E desde então pareço ficar cada vez mais distante do mundo onde os outros vivenciam, co-habitam, vivendo em terras paralelas num aparente mesmo mundo, o extramundo, explicando o porquê do nome desse meu espaço..

Mas me peguei outro dia no fundo - bem lá no fundo - requisitando um antigo desejo, na mais tola das esperanças, como se não tivesse aprendido. Parecia invocar um feitiço, pedindo para quebrar o encanto, como quem quer subir à superfície para retomar o fôlego e voltar a mergulhar.

Quero o encanto do sonho bom, fazer de algum modo concretizar na realidade; nessa e outras horas, a impossibilidade recorrente me parece tão improvável e a esperança se reacende dando a crer por alguns segundos que vou (re)encontrar a mão e os braços de quem vai me acompanhar.

11

de
fevereiro

línea

Linha reta que liga um ponto do horizonte ao outro; todos os dias, todas as noites, todas as madrugadas me ponho frente ao mar.

Não é para muito não; apenas meditar.  Entre uma onda e outra, na espessa linha branca da espuma que preenche toda a orla, o melhor conselheiro que pode existir - ouve e em silêncio retruca, apenas lembrando que o tempo passa, o mundo voa.

Mas é fundamental lembrar que o importante do aqui e agora é estar nesse lugar; o depois é uma consequência e o passado, espuma que as ondas levaram e não voltam mais.

Nunca mais.

6

de
fevereiro

Esmeralda

Quando chovia a noite, com relâmpagos, ela nos arrastava aos beliscões para embaixo da mesa; depois, começava a rezar sem parar, mesmo incomodada com nossos risinhos de deboche. Vai ver que no fundo ela também achava graça daquilo tudo.

Brava, muito brava. Tanto que na ausência de minha mãe, era sob sua tutela que ficávamos. Mas o que d.Eva não sabia - e acho que não sabe até hoje - que ela facilitava muitas vezes. Talvez por que também não concordasse com o excesso de castigos, das penalidades severas, da opressão, mas podemos ver várias vezes o programa Sílvio Santos aos domingos, uma espiadela ou outra na novela, muitas vezes a tarde inteira de sessão da tarde e o desenho que passava no zás-trás.

Eu sabia que ela estava em casa quando abria a porta da geladeira e lá dentro estava o velho potinho de cerâmica esmaltada marrom, com o arroz doce dentro, povilhado de canela em pó e aquelas folhinhas de laranjeira bem no meio (embora nunca soubesse onde ela arrumasse elas, não tínha um pé de laranja por ali em quilômetros).

Sua risada era danada de gostosa; era aliás uma gargalhada. Na hora do programa dos trapalhões, tudo ficava ainda mais engraçado com ela se juntando à claque. Ria de tudo com uma ingenuidade impressionante.

Mais tarde fiquei pasmo de ver que o papagaio, justamente aquele que fazia algazarra diariamente embaixo de minha janela, havia gravado - e reproduzido - justamente ela; e ele ria como ela a todo instante, principalmente - olha só a ironia, durante as noites de muita chuva.

 

 

Cozinhava bem pra caramba: o melhor frango com quiabo, a carne de panela, o açúcar cristal com um punhado de sal; biscoito de povilho, o já citado arroz-doce, canjica e o inefável sonho-de-pobre, ou como outros conhecem parecido (a receita, exclusividade própria, foi-se com ela) como bolinho de chuva.

 

Muito disso ainda se mantém com a Maria, que trabalha com meus tios, que consegue reproduzir parte dessas iguarias com quase exatidão.

 

Mais muito mais fica aqui, impregnado e gravado na gente, tornando ainda vívidas essas lembranças, os gestos e as coisas. E afinal de contas, carrego o sangue dela por todos os lugares. A ramificação familiar existe, e são inegáveis as influências e heranças que permanecem mesmo a carne se partindo, rumo ao pó. Muito de nós ainda fica, permance e constrói novamente, diariamente.

Tenho muito orgulho de tê-la conhecido; com o passar dos anos, mesmo afastado, passei a admirá-la ao refletir tudo que conhecia acerca dela e sua vida, seu universo, sua trajetória; como muitas que existem por aí, foi uma leoa, viveu o diabo e comeu o pão que o diabo amassou. Mas levou adiante, o casamento com S.Tertuliano, uma vida financeira instável e difícil, moradia nômade - uma temporada em quase todo lugar. Não é por nada que tenho parentes espalhados por quase toda extensão do estado de Minas Gerais - tão a cara dela, tão familiar nas nossas vidas.

 

Há muito dela em mim; vejo ela sempre na minha irmã, sei que também nos meus tios, primos - e muito na própria infelicidade de minha mãe.

 

 

Algo se vai, decerto; mas muito de nós fica. Espero que façamos bom uso do que restou, construindo e somando com coisas novas. Sua risada, por exemplo, vai sempre ecoar em minha memória.

Por exemplo, ainda rio muito de uma queda acidental, quando moleque bem levado, fugindo da surra que ela prometia; de tamanco na mão, correndo atrás do efebo pela casa, que não devia ter mais que onze anos, e num gesto impensadamente infeliz, arriscou um pontapé mal-sucedido em cima de um tapete esgarçado que separava a cozinha da sala de jantar. Não deu outra, uma queda daquelas no chão, bem de bunda, daqueles que desconjuntam qualquer um.

Até ela caiu na gargalhada.

Mesmo longe eu não parava de rir; ainda me maldizendo desaforos, se levantou até com uma certa facilidade e desistiu de me bater. E gargalhava, rindo de si própria como uma criança.

 

E sempre antes de dormir, mesmo não entendendo muito, eu e Ana Cristina sempre pedíamos sua bênção - onde quer quela estivesse; e ela sempre respondia. Claro que como moleque zoado, adorava fazer isso em momentos singulares, quando por exemplo ela estivesse no banheiro, só para ver se ela respondia. E é claro impreterivelmente sim.

 

Pois então agora é minha vez:

 Sua bênção, minha avó;

vai com Deus, querida.

6

de
fevereiro

deadlines

Mais do que o tique-tac do relógio, ou mesmo a passagem dos dias, eventos como esse dão um modo estranhamente preciso da passagem do tempo.

Antes pertencia a terceira geração; agora, sou da segunda. Os que foram deixam aberta a vaga.

 

Inexoravelmente.

5

de
fevereiro

corpões

Arfa o peito:

Na seleção de belos corpos, os rapazes de Juqhey tem dado o que falar. Um mais bonito que o outro; dá vontade de beliscar.

5

de
fevereiro

mistura fina

Escutando o rádio por esses dias, me veio à mente uma união que pode dar samba:

seria interessante juntar Jorge BenJor e Negra Li; algo me diz que seria um swingue só.

5

de
fevereiro

calling later

A vista era de paraíso; como na música, coisa de cartão postal, na areia insuportavelmente branca, no mar sempre azul, o barulho das ondas constantemente, enchendo os olhos de mais puro colírio. Pensei aqui comigo, beleza assim geralmente atrai ainda mais beleza.
E era; temporada, todo mundo se refastela nas cadeiras, arruma um paninho e se aboleta na praia. Vê-se muita coisa bizarra, estudo de corpos e formas, tem de tudo. Era tudo. Momentos como esse para guardar o resto do ano, todo o restante da vida.
Não dá para lembrar muito das vicissitudes; nem das faltas, dos problemas, da fome, das sérias dificuldades. Os dilemas ainda persistem, mas aqui nesse hiato o mundo parece não cobrar, ilustrando na brisa constante que o calor pode ser insuportável: mas o vento cálido sempre vem para nos refrescar a face.
Eu de garçom; ou coisa parecida. Trabalhando na temporada para angariar alguns trocados, poucos. Maior ainda é a experiência, descoberta de um mundo novo que é justamente esse que cohabitamos todos os dias. Ralação brava, das onze à meia-noite, às vezes uma ou duas da manhã.
Coisa estranha é que mesmo a beira do paraíso vislumbra-se o inferno; dá para saber que somos nós que escolhemos qual lado ficar. Estranho ainda é o modo como cliente trata empregado - muitos sequer olham na cara. Seria fruto de uma ascendência colonial, reeditando o modo casa-grande-e-senzala que brasileiro ainda tenta conservar ?
Existe as divisões sociais, realmente se tentarmos dizer que somos todos iguais, vem dias como esse para mostrar que ainda fazemos sim muita distinção um dos outros.
Mas eu aqui só observo enquanto atuo - e erro; chega um grupo de quatro, eu e minha memória encasquetam que eu conheço aquele senhor de algum lugar. Penso e remôo, e não consigo identificar de onde é.

E ela chegou, a filha caçula, de rabo de cavalo, levemente bronzeada, roupa de banho envolta numa saída diáfana. Quase não andava, levitava. Estava impecavelmente linda.

Renata.

O mundo é pequeno demais, não importa qual seja; eu e os pára-mundos, paralelos no extramundo, num lugar como esse esbarro em deus e o mundo. Ninguém sabia que eu estava aqui fazendo um bico. Nem a minha (quase) melhor amiga. E aqui estamos os dois no reencontro, aparentemente tão próximos e constatadamente tão distantes.
O abraço foi espontâneo, o resto não foi. Houve aquele quê de social típico de quem trabalha na televisão; apresenta ao pai, namorada do pai e irmã. Social, como um epitáfio de uma amizade que parece ir embora mas que precisa de algo para improvisar na presença de um diante do outro.
Quase nem lembrava o quanto estamos distantes; creio que ela possa estar magoada comigo. A situação toda parece desconcertante, mas eu procuro ser agradável. Digo que dali alguns minutos vou ter alguns momentos de descanso. Queria dizer um zilhão de coisas para ela: da sacanagem gostosa que rolou com um sujeito durante a madrugada, das coisas que vem acontecendo, dos dias e das noites e seus estranhos reencontros; dizer que estava feliz em revê-la.

Que vê-la entrar naquele recinto foi uma das coisas mais lindas e poéticas que havia presenciado por esses dias - ela era trecho de filme, de música predileta, de perfume solto ao vento. Talvez pela distância, nunca a vi tão graciosa como havia visto durante aquela momento.

Ela declinou, disse que estava atrasada; deu para ver que não iria rolar, a esfera dela agora era outra. Eu já apostava que dali não iríamos nos reencontrar. Então dei as costas e fui embora, nadar na praia, usufruir meu descanso, imerso nas recordações mas atento a exuberante beleza que explodia todo instante ali na praia. Mais de uma hora e meia de descanso.

Quando volto, já esquecido do reencontro, o rapaz que serviu a mesa deles me procura e diz: "ela saiu ainda há pouco; disse que está sem tempo, mas que vai te ligar…"
Ligar depois.
Ligar.
Não creio; seria forçado dizer que seria diferente, forçar algum tipo de outra situação. Estamos indubitavelmente distantes no momento, e aida que vislumbrasse ela assim tão próxima, nunca estivemos tão longe um do outro.

Eu do resto do mundo; de tudo e de todos.

Dói. Mas aprendo, quem sabe para consertar o que dá para saldar. Mas restará comigo, para qualquer lugar que vá aportar, a figura quase etérea e diáfana que de surpresa veio me abraçar nesse momento singular. Dando a entender por um segundo, que nada é tão sério assim.

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