e(Xtra)mundo

Terra Paralela; nessa órbita fora desse mundo, dessa realidade, aonde vai parar esse vagabundo…

10

de
abril

pedaço de céu

 

 

Vejo as auroras diárias em uma réstia de céu ainda escuro sobre o céu de S.Paulo; no vão de um prédio e outro, azuis, salmões, amarelos e brancos, prédios encardidos com janelas sonolentas; quase nenhum insone ainda iluminado. Do azul-escuro celeste, a lua vai caindo no horizonte carregando consigo as duas últimas estrelas de um céu reluzente.
Chegando o sol, vem o violeta indo para o róseo; os primeiros sinais de luz amarelada, caindo para o laranja, pintando as nuvens de um delicado púrpura, que aos poucos vai embranquecendo. Tragando o cigarro, me debruço no pequenino parapeito de uma sacada encardida e apertada; como tem estado minha vida, meus dias e minhas noites em claro. Solto a fumaça lentamente.
Minha cabeça não está aqui.
Penso no ultimamente, nos dias emergentes, no que há por vir. No que não estou fazendo; angustiado, vai apertando no peito aquela coisa de não querer estar mais por aqui: nesse lugar, nessa altura, nesses dias, dessa vida; sei que isso é cruel.
Mas é coisa que se sente, não se pensa.
Lembro dos dias de abóbada, do mesmo céu amplificado, esmagando nossas cabeças, que se vê nas matas de Brasília, significando nostalgia.
Ressentido, o contraste revela mágoa da perda de uma certa inocência. Os dias me pareciam mais leves, mais simples, mais lentos. Eu vivia; hoje, somente existo.
É claro que a cabeça da gente vai para algum lugar quando nela a gente não tem do que se ocupar. Presente tem sido complicado, arroxeado, e eu na minha previsível fuga, num enclausuramento analítico. Percebi que fico como um computador Hal-Spock, pois analisando o mundo externo me abstenho de atuá-lo. Essa descoberta me deixou em xeque, me desnuda um pouco mais, e com essas me sinto uma piada velha de mim mesmo.
Mas meu olhar naturalmente vai ao longe, e me traz a sensação de que o tempo e o espaço não tem trajetória, coexistindo e se entrelaçando, tudo de uma vez só, justificando o espontâneo, e juro por deus que muitas vezes tenho a estranha impressão que posso até enxergar a genealogia do programa-Matrix que nos rodea. Acho que estou ficando maluco, é o que muitas vezes penso, declinado em seguida por duas razões: se é assim, é por que não deve estar ocorrendo (ainda, pelo menos), pois o louco acredita na sua loucura. E por que com o passar dos dias, em vez de cada vez mais aparvalhado, tenho agregado mais de uma certa tranquilidade que me impede mais dos antigos e desastrosos atos impensados de outrora. O que se convencionou chamar de experiência.
Mas existe muito mais entre o meu olhar e o sol que nasce; e posso sentí-las, como quem vê entre um número e outro, no contar o compasso de cada minuto no ponteiro dos relógios.
Mas o que realmente é forte é essa estranha impressão de estar fora do sistema, na rotação do programa, fugindo do esperado. Não era para estar aqui, não era pra ser assim, não há para onde ir, voltar ou fugir. Está tudo errado.
Mágoa; mais um trago.
Olho para os que estão ao meu redor, para os lugares, pessoas, a rua e seus componentes; vem uma inveja deles, como se na sua rotina diária justificasse suas vidas, como vivos - e eu aqui, nesse limbo pessoal, que quero me ver distante. O que me faz diferente deles eu não sei, o que nos distingue, onde foi que saí do roteiro. Uma vontade de querer ser diferente, dar o reestart e começar tudo novamente. É, não dá. E não tem jeito.
Identifico em mim um moleque birrento com seus dez anos; tá é querendo colo, tá querendo dizer que não quer berrar mais. E como tal, aflito por não compreender as regras de um mundo adulto que além de confuso, prima pela rigidez. Tenho cuidado de não voltar atrás e não utilizar algumaoutra pessoa como muleta, sempre tive horror a isso. Mas já me disseram que se usa uma quando se está machucado e manco, não podendo mais andar.
Deveria arrumar alguma, então ?
Não; não tenho resposta. Mas tenho observado mais em mim do que antes. É, baixei a guarda e deixo todo mundo puto. E eu aflito. Essa merda não pode continuar.
O cigarro se apaga entre meus dedos e eu querendo que ele não vá embora; não querendo que o mundo dê mais uma volta, que as horas avancem e acabem me arrancando mais alguma preciosidade: chamei isso um dia de lição do desapego - pois desse mundo nada se leva. Apenas o que se carrega, aqui dentro, consigo.
E cá comigo, só sei que meu universo é obscuro e vasto. O que eu gostaria mesmo é desvendá-lo; melhor, espalhá-lo no outro, nos outros.
A vida é muito breve.
Como breve têm sido os cigarros…

4

de
abril

pura verdade

Vejo o mundo em tons, semi-tons e matizes; de variadas cores.

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