Subiu alto, ao mais íngreme dos pilares de pedra - o que não lhe era dificuldade - e pôs-se em pé, desclaço, e olhou o mundo a sua volta; ficou assim silencioso por muitos minutos. Depois, sentindo um crescente vir de suas entranhas, viu que era inevitável encher seus olhos d’água e começar a chorar ali mesmo.
Suspendeu as mãos como se pedisse auxílio aos céus; mas não bradou nada, não proferiu uma única palavra. Juntamente com seu torpor, havia consigo algo muito forte que lhe dizia que nada adiantaria, nenhum gesto abrupto ou mesmo algo intenso mudaria em si a qustão; sabia que existiam milagres, mas sabia que não ocorreria um ali.
Com alguma força murmurou "por que isso, meu deus"; mais um lamento do que em si uma pergunta. Olhando dali o horizonte que se perdia até um distante crepúsculo, todas as suas preocupações pareciam ter ali um espaço diminuto. Mas ciente estava que estavam ali presentes com ele.
"Não sei como retornar", pensava "se houvesse um meio de olhar para trás". Não havia, os passos sempre seguem rumo adiante, como o tempo e o ponteiro de seus relógios que avançam sempre ligeiros numa só direção.
Ali no alto ele sentia-se satisfeito; não havia solidão, não convivia com ele a incômoda sensação de estar constantemente só, mesmo inserido numa multidão. Ele não conseguia mais a convivência dos outros, salvo alguns parcos momentos, não gostava mais de falar de si, de sua vida, de seu caminho errante. Não sentia nada e queria que as coisas fossem exatamente assim: um suceder-se de nada de mais, silêncio perante os ventos, do raiar do sol ao cair das estrelas.
Ele havia falado de si para um outro como ele: o sangue infectado, sua solidão, a falta de perdão consigo próprio. Uma maldição. O que o outro fez ? Desconversou, deu de ombros, sorveu duas doses de destilado e foi para a farra que a noite anterior oferecia.
"O que eu queria com isso, será?"…era não sentir-se não tão sozinho, não tão esquisito, não tão alienígena.
Esse papo de ser soropositivo é um saco. A Vida e a Morte estão sempre lhe perguntando se você ainda pode bancar sua aposta, que é (sobre)viver sem enlouquecer; ou dar cabo de tudo antes de uma finigrama acontecer. E no meio disso tudo tem as pessoas, os dias e as noites, e a oportunidade de que algum evento inesperado possa conjugá-lo a algo desesperadamente inesperado. Como em Esperando Godot, ele sabia que espera-se, espera-se e Godot nunca vem; estão todos, todo mundo, esperando alguma coisa, que faça parecer sem ser dum jeito estúpido, algo que possa justificar nossas vidas.
O que mais lhe incomodava era sua cabeça, suas inúmeras informações e impressões - todos os registros das emoções, experiências e fatos vividos, que ficavam ali guardados com ele, renovando sua sempre atualizada caixa de Pandora; mais feliz seria ele, muitas vezes pensava, que seria melhor viver se não fosse assim.
E do alto observava as pessoas, a festa distante começando na boate, os jovens bêbados e drogados, se beijando, se tocando e acariciando, e sentiu dentro de seu coração gelado que sentia ali muito mais do que inveja; ele pensou, por um instante, que se assim o fizesse, também não lhe pareceriam tão incômodas tais divagaçoes.
E viu mais adiante os exagerados, os embriagados, os exessivos, que como ele - inclusive naquela maldita noite que deixou-se contaminar - diversas vezes já se comportara dessa forma. Viu muitos caídos, muitos abandonados, todos terrivelmente alterados.
Viu mais profundamente a tristeza erguida no coração dos dissimulados, viu que era ambundante; que para falar a verdade, havia muito de ilusão naquelas ruas, nos incandescentes faróis que iam e vinham. Havia aquele vazio no olhar, nos corpos - muitas vezes muito bem adornados - mas que parecia cambalear como se estivesse faltando algum pedaço que deveria preenchê-los ali dentro.
"Quem aqui está falando a verdade ?" por fim pensou.
Envoltou-se no cobertor para aquecer-se, pois ali sentia frio. Não havia ficado mais calmo e nem ali o raio daquela tristeza desaparecera. Mas que havia visto o sufciente, coisas que em si não eram muito de consolar, mas que apenas não o deixava diferente de ninguèm, e cuidadosamente desceu das pedras. Depois, tomou o rumo de sua tenda, tragou um cigarro que carregava consigo para sempre fazê-lo antes de dormir, e deitou-se; rogando sinceramente que logo adormecesse, e o bom sonhar o trouxesse bons sonhos; não daqueles onde todos os nossos desejos parecem se realizar. Mas daquele que desse a nítida sensação de que vivesse numa espécie de realidade paralela; por que nessa, onde todos nós vivemos, há muito deixou de fazer sentido e o deixava amargurado.
