Na Terra vinte-e-cinco-régia-onze;
Na sala quadrada de comemorações, um grupo de celebrantes era observado por um Singular de nome Sayadhin, também presente para algum tipo de evento ali acontecido.
Envolto nele, uma etérea entidade que mais ninguém via, se entrelaçava nele com seus braços, como uma cobra, e em seu pescoço e braços. De rosto colado ao seu, sussurrava junto ao seu ouvido palavras ácidas e maliciosas, sibilando em seu sarcasmo as coisas que geralmente ninguém (diz que) vê nesses e em quase todos os lugares.
Não era o caso dela; nem o de Sayadhin.
"Não vê que está em todo lado, em todos os olhares?" Perguntava quase rindo, ora jogando a cabeça para trás, sacudindo seus revoltos cabelos cor-de-violeta, se apertando ainda mais junto a ele;"sente? esse perfume pairando no ar, no hiato do gesticular das mãos, no brilho e na direção dos sorrisos, na intenção nada casual de cada vontade…?".
"sou necessária" dizia, como que justificando seu próprio nome: Vaidade; "estou em todo lugar"…
"Você não é real", respondeu secamente seu antagonista, calmamente virando seu rosto e encarando-a direto em seu olhar.
"Mas"ela insistia," estou presente em todos os atos de qualquer ser humano; coisas aconteceram por causa disso. Fez-se o mundo, criaram-se civilizações, mundos foram destruídos e substituídos no caminhar da evolução do homem. Não sou boa nem má…", e sorria de modo malicioso "não tem como julgar o mérito de minhas ações, estou acima do julgamento do bem e do mal…"
Ele continuava a encarar como se não tivesse palavras para contra-argumentar.
Via o pequeno grupo de pessoas que se reunia ali; os que ali celebravam, seus conhecidos, juntavam tal pretexto ao orgulho do projeto conquistado, do objetivo conseguido. Mais; via na camisa exótica do barrigudinho, querendo-se estilizar num rapaz moderninho perante a variada vaidade masculina abundante em todos os homens na sala, no salto da ruiva que usava preto. Na garçonte servindo o drink para o menino, no gargalo do copo da velha, no senhor que insistia em falar mais alto que todos; no pai olhando as amigas da filha, do entediado apresentador da palestra que coçava o desavisado dedo, no vestido (e brincos) da babá que estava ali para acompanhar o filho de algum casal que vaidosamente se mostravam juntos, nos sorrisos que quase convenceriam um…Nas pessoas querendo aparecer, nos outros que queria conhecer. Em todos. Todos.
"E não é só na esfera do bicho-homem que estou presente, seu animal…", continuava.
"A própria mãe natureza me tem como aliada e sou presente na plumagem dos bichos, no canto dos seres, na altura das árvores. Na cor, no vento, na terra e no fogo; e no espaço. Posso estar presente no alto, no éter, no brilho de cada estrela".
E voltando a contemplar o grupo, rejubilava-se:" eu sou soberana; sou eterna. Não tente medir meu tamanho, pois não teria como. Estarei presente até mesmo em você, nos seus olhos, nesse seu coração partido e orgulho ferido".
E com uma silenciosa fúria, o Sayadhin rangeu os dentes fitando incisivo o olhar daquela que o zombava:
"Creio que é você que não entendeu o que disse;"
" Você não é real".
e continuou, "Não adianta estar presente em todas esses quadrantes, esferas, dar a proporção que quiser dar; mas de fato, na realidade é pura ilusão".
A criatura se estremeceu.
"Por que nesses momentos", continuou," faz-se crer eterna e permanente. Mas não é isso, é apenas um momento, um ponto, um pó na transitoriedade das coisas, nada permanente; sua afirmação de eternidade é falsa".
"Acreditar-se tão plena é uma inverdade e é ser cruel, pois ao deparar-se com o efêmero, o que se comprova é a mentira. Então agora, neste momento que aparenta ser tão sedutora e lasciva, de cabelos cor-de-violeta, de madeixas vivas como serpentes, e com o corpo e braços sinuosos e sedutores, mostra-se nesse mesmo hálito quente e venenoso tratar-se duma maldosa e cruel armadilha; uma ingrata mentira,
e falsa".
"De verdade, para os que não puderem ver tanta beleza articulada, algo decrépito e apodrecido".
Depois determinou:
"Vai embora: não lhe pertenço mais".
E assim, num grito seco e num piscar de olhos, ela se dissipa como fumaça.