“Oi querido,
Espero que esteja melhor.
Sua mãe veio almoçar hoje com a gente e trouxe a nova filha dela (a cachorrinha Bruna). Realmente é linda, depois mando as fotos.
Tentei conversar com ela sobre você, mas infelizmente ela não aceita.
Ficamos horas vendo DVD com o seu aniversário de 17 anos, a casa da Vó Esmeralda, Tia Dorinha e os meninos pequenos. Muitas saudades e bons tempos aqueles.
Para mim já é um orgulho pode ver os seus desenhos na internet.
Que Deus o abençoe.”
mail informativo de minha Tia, falando verdades que nunca mudam; coisas de famÃlia.
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eis a resposta que nunca chegará às mãos dela:
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Nega sim; nega o próprio filho, a própria sina, a própria vida com nojo, asco por não querer isso que há. Ela tem aversão de tudo isso aqui, não dá para disfarçar.
Ela não aceita por que sou tudo aquilo que ela gostaria de esconder; sou sua vida que não deu certo, sou sua origem de chicote e barro sujo, de beliscões na costela e sadismo com formigas. Sou a pele parda que ela empre abominou possuir, nos membros de sua famÃlia, rondando seu racismo como constante ameaça; a sujeira em seu currÃculo, em sua infalibilidade, em sua predestinação divina. A raiva, a ira e a fúria seja de alguma vigança, revanche, qualquer tipo de ato passional que não se quer (ou pode) admitir.
A simples menção de meu nome é o suficiente para lhe fazer embrulhar o estômago, invadindo suas veias com algo gélido e desagradável. Uma vez há algum tempo, ela (dis)simulou um princÃpio de enfarte por causa de desavenças com minha irmã; como resposta, essa vivia dizendo conhecer movimentos da capciosa manipulação feminina - ainda mais as de nosso (estranho) sangue, dizendo que era blefe; mais uma armadilha. Uma manipulação voluntariosa para conseguir as coisas; e estava certa.
No entanto, estou ciente de que de fato realmente posso matá-la, se provocar qualquer tipo de confronto.
Curioso que essa mesma tia em questão passou anos sem contato conosco, desde princÃpio da adolescência até a maturidade de seus filhos já grandes; mentiras, alegando a responsabilidade de um garoto de dez anos de idade pelas intrigas deles e nós, meu melhor tio, minha melhor tia. Por que acidentalmente num exame de sangue realizado em mim eles finalmente descobriram a incompatibilidade de mim e de meu pai: havia sido pega em sua mentira, e com um medo quase mortal de se explicar, criou essa e outras oportunidades para afastar um e outro de possÃveis embates.
Ou maturidades.
Não é louca; a loucura, na realidade, é que flerta com ela. D. Eva é humana, demasiadamente humana em suas fraquezas, seus estratagemas, seu modo de arnar as situações, de se esconder - até de si mesma. Na realidade, é explÃcito uma vontade quase pueril de mitomania, de não-aceitação da realidade; de “vamos-fingir-que-ninguém-está-notando”. Ninguém é realmente bom, nem mau de todo; todo mundo é cúmplice por algum motivo, por algum acaso, por que a vida é maior do que qualquer código binário - mesmo do ‘certo’ ou ‘errado’; e como diz a frase, tem razões (sutis) que a própria razão desconhece.
Fato é que uma vez que suas próprias ações a fizeram confinada na sua eterna solidão, e de um modo parasitório ela (mais uma vez, dis)simula afeto aos filhos dos outros; das poucas amigas que ainda convivem com ela, por pena talvez. Ou por partilharem a mesma visão de que é realmente difÃcil ter um filho homossexual soropositivo com brinco na orelha; ou uma filha com metade do corpo tatuado; mas ao menos ela é loira.
” eu tenho que agradecer a deus pelo carinho e atenção que sua mãe dá aos meus filhos”, recentemente disse tia AlaÃde, em sua quase-santidade em conviver com ela, num tom quase confessional de um desabafo. É verdade, isso foi feito durante todos os dias de nossas vidas juntos; sejam as crianças-prodÃgio das novelas, sejam os primos loiros do outro lado da famÃlia; seja a afilhada branquela que ela dizia ser sempre perfeita, para desespero de minha irmã, sempre insatisfeita, constantemente criticada.
 O truque é eficiente; desvia a atenção para o outro, ninguém ali repararia que na realidade o temor e o pânico que na realidade fosse ela o foco avaliado, comparada e - nunca poderia acontecer, jamais de acordo com seus preceitos - até mesmo julgada. O mundo é que errava, por que na realidade tudo que não lhe fosse compreendido - e muitas vezes não era -, acabava sendo justificado. Sinceramente, esse ar debilitado que os anos lhe trouxeram a seus passos e a trágica história que carrega em seus ombros (mesmo que recrie dia-a-dia a realidade) quase disfarça o que na realidade é miserável: a cobiça do outro, da vida do outro, das coisas do outro. Por que o medo de D. Eva é de ser apenas ela mesma.
Cobiça o corpo alheio, sua genética; nas inúmeras mudanças, dietas, de nunca ser a magra que, frustrada sempre era a gordinha da turma. De também secretamente cobiçar diariamente os filhos dos outros, associando uma inveja corroÃda com uma vontade de ser diferente, uma vida diferente. Talvez para não ser cobrada, talvez para não fazer tanto esforço na vã tentativa de ser feliz - será ?
Uma suicida em potencial, por negar a própria vida como configuração; não é diferente de muitos, mas o que se fez para mudar isso é o que aponta o traço duma desagradável covardia: com os outros, com os filhos, com si mesma. Uma tirania pelas falhas que cometeu nos anos de sua vida.
E sei que lá no fundo ela tem consciência disso; sei por que é um traço comum de nós, dessa famÃlia que faz que não se gosta, desse sangue sujo que nos compromete. Sua fraqueza é tão grande que se tornou maior do que ela, de que suas verdades. É o que a mantém erguida, avançando no dia-a-dia disfarçando de modo lacônico de que tudo está bem. Fingindo não saber que todos sabem de (quase) tudo. Desempenhando o papel de vÃtima por que é mais fácil se eximir das responsabilidades.
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E, talvez finalizando o estratagema que a essa altura pode até ser convenientemente desfeito de sua responsabilidade, assume a persona por que é feito por todos no jogo (play) da vida; pobre mulher, coitada infeliz que não teve sorte por ela. Presa por um momento eterno na voz interna num tempo que ficou lá trás. justificado nas mazelas, por que em teoria a vida de todo mundo realmente pode nos parecer sedutora ou insuportável; depende de sua semiótica.
E incapacitando algo da própria sabedoria que essa mesma condição nos traz: algumas sementes (casualmente) semeadas se frutificaram, pelas mesmas adversidades, pelas diferenças, em frutos significantes. Mas que a rigidez da infaltil covardia impede de lançar os olhos adiante e enxergar que não regemos as leis do universo, não somos emissários divinos e não temos nenhum motivo especial em sermos maiores ou melhores que os outros; ponto negativo para essa tola.
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Por que “enquanto fazemos planos, a vida vem e acontece”; quem disse isso foi Jonh Lennon. E Eva de Oliveira Martins, inflelizmente, nunca teve bom ouvido para escutar os Beatles.